Este espaço é uma homenagem ao grande sociólogo e historiador Gilberto Freire criador da obra homônima. Seu objetivo é a divulgação de latinidades, africanismos e gentilidades e o desvelamento desse povo apaixonante e apaixonado denominado latino americano e suas origens.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

FANTASMAGORIAS DE UMA FALSA TRADIÇÃO





I
COMO VESTES TUAS GLÓRIAS 
SENHORES DE CASTELA
TEU IMPÉRIO ATINGE
TODO O SOFRIDO CONTINENTE.
O IRMÃO DO ÍNDIO,

GUARDA FIEL TEU TESOURO
COM SEUS METAIS FORJAM-SE
AS ARMADURAS DO VICE-REI.
NEGROS ESCRAVOS ACORRENTADOS
CORTAM TRILHAS NA SELVA BRUTA
O SAQUE FOI DIVIDIDO
ENTRE OS CORSÁRIOS
QUE SEMEIAM MORTE E DOENÇA
AO GENTIO INCULTO

II

A CRUZ ELEVA-SE 
DO SOLO DA MISSÃO
AS FLAUTAS E O CANTOCHÃO
PERCORREM OS MUROS DA CIDADELA.
CAVA O OCASO NESTE MOMENTO DE GLÓRIA
AO DEUS BRANCO QUE TUDO VÊ!
FLAUTAS, APITOS
MARCA RITMO O TAMBOR SINCOPADO.
DESTA DANÇA DA FERTILIDADE
AO SOL QUE MORRE
ATRÁS DA GRANDE ÁRVORE ANCESTRAL
FILHA DO ASTRO, PROTETORA DA TRIBO
MILENAR MEMÓRIA SEDENTÁRIA,
TUA SOMBRA AINDA COBRE A CRUZ FINCADA
MESMO O DEUS BRANCO REVERENCIA
A TUA GLÓRIA PASSADA DE DEUSA.

III

DO OUTRO LADO, AO LONGE
O SOL VEM TOCAR ARMADURAS E LANÇAS
NESTE ÚLTIMO RAIO, SUSPIRO,
BRILHO MORTAL,
QUE MANCHA DE SANGUE O CÉU.
VOAM AO SEU ABRIGO,
OS SERES ALADOS,
NO FIM DE MAIS UMA TRÉGUA

O RELINCHAR DOS CAVALOS,
O TROPEL DOS PIQUETES,
SOA O ALARME DA SENTINELA.
CLARINS E TAMBORES,
ANUNCIAM O ATAQUE DOS INFANTES
MAMELUCOS, PÉS DESCALÇOS,
MERCENÁRIOS SUJOS, MALTRAPILHOS,
VESTINDO UNIFORMES DA COROA
SEDENTOS DE OURO E GLÓRIAS .

IV

OS GUERREIROS DA CIDADELA
PREPARAM SUA DEFESA
MONTAM SEUS GINETES,
AS LANÇAS EM RISTE,
BENZE O PADRE JESUÍTA.  
A ADAGA
REZAM A ÚLTIMA PRECE
JUNTO Á IMAGEM DA VIRGEM.
MULHERES E CRIANÇAS BUSCAM REFÚGIO
NA VELHA MATRIZ.
TROAM OS CANHÕES,
CHOVE BOMBARDA.
O ALTAR MOR RACHA
DESPROTEGIDO 


V

OS CAVALEIROS INVESTEM EM CARGA,
COM SEUS COLORIDOS ESTANDARTES,
SEGUE ATRÁS A TURBA
COM SEUS GRITOS DE GUERRA.
SÃO MAMELUCOS, MOUROS PAGÃOS
NEGROS ESCRAVOS CARREGANDO SEUS BRASÕES
SEGUEM OS CAVALEIROS DE CASTELA,
SENHORES IMPÁVIDOS DA MORTE,
E DO FOGO DA METRALHA.
SÃO POUCOS OS BRANCOS,
PORÉM A TURBA OS SEGUE,
ESPERANDO AS SOBRAS DO SAQUE,
AS MIGALHAS DOS TESOUROS DA BATALHA.

VI

UBIRAJARA, SEPE’, ARITU,
XANGA, KALE’ E MANA’
BEIJARAM A IMAGEM DA VIRGEM,
UNTARAM SUAS FLECHAS
COM O VENENO DA MORTE,
SENTINDO NO CORAÇÃO O PESO
DERRADEIRO DA LUTA PRESENTE,
O CHEIRO DA PÓLVORA NO AR,
O ENXOFRE DO INFERNO CRISTÃO
QUE SE AVIZINHA
.
MOEMA AJOELHADA, CHORAVA QUIETA
OLHAVA SEU FILHO
AINDA NO COLO DE MANA’.
NESTA ESTRANHA CALMA
QUE ANTECEDE A TORMENTA



VI 

A SENTINELA ESPREITA AO LONGE,
DA TORRE ALTA
O INIMIGO QUE AVANÇA
A CADA PASSO DA CAÇADA,
A LINHA FLAMENGA CERCA SUA PRESA,
COMO UMA MATILHA SEDENTA.
OS CANHÕES DA CIDADELA RESPONDEM
AO FOGO VINDO DAS COLINAS.
ANIMAIS SELVAGENS PROCURAM REFÚGIO
NOS RECÔNDITOS DA FLORESTA,
ONDE O HOLOCAUSTO HUMANO
NÃO PERTURBA SEU CICLO DE VIDA.
OS GUERREIROS DE CRISTO
COM SUAS POUCAS ARMAS,
JOGAM-SE EM DERRADEIRA INVESTIDA
SEUS GRITOS DE GUERRA
PROVOCAM CALAFRIOS AO PRÓPRIO DEMO.
SEUS CORPOS, SEUS PECADOS, SUAS ALMAS
SÃO ARRANCADOS PELO CHUMBO DAS GRANADAS

O DEUS BRANCO QUE TUDO VÊ
LEVA EM PAGÃO SACRIFÍCIO SUAS ALMAS
O AÇO PURIFICA O CORPO DAS CRIANÇAS
QUE DEFENDEM AS MURALHAS.
MULHERES CHORAM, REZAM,
ARRANCAM SEUS CABELOS
NA VISÃO DA  AGONIA DA MORTE,
DE SEUS MARIDOS E FILHOS MUTILADOS
PELAS BALAS TRAIÇOEIRAS
DO CONQUISTADOR BÁRBARO.

VIII

FUMAÇA SOBE,
DA ROÇA INCENDIADA
QUANTO ESFORÇO AGONIZA
TANTO TRABALHO DE ENXADA
QUEIMA AO VENTO,
TRAZENDO O CHEIRO DA MORTE
DO FRUTO DA TERRA.
MANA’, CHEFE GUERREIRO,
CAPITÃO, CAVALEIRO,
CHORA O DESGOSTO DA GUERRA PERDIDA
CONTRA O VICE REI.
SENHOR DO FOGO QUE DESTROI
A TERRA,
SUCUBO DAS PROFUNDEZAS,
MAL DA INFERNALIDADE.

O ÍNDIO PICA A ESPORA NA MONTADA
SENTE O VENTO E A RAIVA CEGA,
O ASSOVIO DAS BALAS DOS BACAMARTES 
A DOR DAS FLECHAS ENTERRADAS,
LEVANTA AGORA A ESPADA,
VALENTE SEGUE PARA A MORTE GLORIFICADA,
PARAÍSO DO DEUS BRANCO QUE TUDO VÊ.

IX
 
CEDE A MURALHA DA CIDADELA!
ESTRONDO DA ARTILHARIA CESSA
DUZENTOS VALENTES JAZEM NA TERRA,
MOLHADA PELO SANGUE NATIVO.
AS MULHERES PREFEREM A MORTE,
QUE CAIREM NAS MÃOS DOS CARRASCOS.
OUTRAS, MATAM SEUS FILHOS,
PARA QUE SIGAM DA TERRA
SEM SENTIR A CHIBATA DO FEITOR
QUE APRISIONA.
JESUÍTAS REZAM AO REDOR
DA IMAGEM DA SANTA VIRGEM
ALUCINADA.
COM SUAS NEGRAS BATINAS
SEGUEM SUICIDAS EM DIREÇÃO AS BALAS
PROVAM A SANTIDADE DOS MARTÍRIOS

X
NA PRAÇA, A ULTIMA FRONTEIRA
NO CORPO A CORPO DA INDIADA
ENTREVERO, O BARULHO DA ESPADA,
O CHORO, A REZA VINDA DA IGREJA,
ACUDIA O DESESPERO DA PELEJA.
A COURAÇA DO TUXAUA
FLECHA MORTAL TRESPASSA
MAS ANTES DA MORTE,
COM GOLPE DERRADEIRO DE ADAGA,
MANA’, MATA MAIS UM CASTELHANO
ARREBENTA OUTRO COM A MACHADA
SEPE’ LEVA UM TIRO NO OLHO,
OUTRO NO ANTEBRAÇO,
ARITU, UM PONTÃO DE LANÇA,
KAME’, UM ESTILHAÇO.
UM POR UM VÃO MORRENDO
EM MEIO A BATALHA, DE CANSAÇO.
XANGA MATOU MAIS DE CEM
CAIU JUNTO AO RIO COMPRIDO
COM OUTROS DUZENTOS GUERREIROS,
DO CORAÇÃO SAGRADO DE CRISTO


XI

O VICE REI, DE LONGE TUDO OBSERVA
ACOMODADO EM SUA LITEIRA CHEIROSA
HOJE NÃO E’ SEU DIA
A GUERRA E’ ENFADONHA,
SUA GOTA O INCOMODA.
SONHA COM HONRAS E FESTAS NA CORTE
D’EL REI DE ESPANHA,
ONDE ERA CAVALEIRO, NOBRE, E POETA


XII

MOEMA DA TORRE ALTA
A DERRADEIRA FLECHA AVISTA
TOMBA MANÁ CHEFE GUERREIRO
SEM HESITAR, RESOLUTA,
DE CIMA DA MATRIZ VOA
ABRAÇADA AO FILHO
VOA EM DIREÇÃO AO PARAÍSO
LIVRES SEUS CORPOS TOCAM A LAJE,
SILÊNCIO.
 
A CIDADELA POR FIM SILENCIA
COM A TRÉGUA DOS MORTOS
DILACERADOS CORPOS.
AGORA A CHUVA LAVA O SANGUE
DAS RUAS, DA PRAÇA
ENQUANTO SURGE O DIA
DAS CINZAS DA VILA INSEPULTA
A PRIMEIRA MOSCA POUSA
NO CORPO MORTO DO SOLDADO
A VELHA ÁRVORE ANCESTRAL JAZ ESTENDIDA
A CRUZ PERMANECE
PARA MARCAR AS TERRAS D’EL REI
O PRIMEIRO ARIBU VOA SOBERANO
ATRAÍDO PELO FESTIM DOS CANIBAIS


FINAL

A SOMBRA DA CRUZ AINDA PERMANECE
LÁ ONDE  OS FANTASMAS DOS JESUÍTAS REZAM,
E OS ESPECTROS DOS GUERREIROS  COM SUAS LANÇAS
AINDA INVESTEM SUAS CARGAS
EM MEIO AS NOITES DE LUA CHEIA
ONDE A NAÇÃO DOS FILHOS DO SOL
PARA SEMPRE, DEIXOU DE EXISTIR.

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