Este espaço é uma homenagem ao grande sociólogo e historiador Gilberto Freire criador da obra homônima. Seu objetivo é a divulgação de latinidades, africanismos e gentilidades e o desvelamento desse povo apaixonante e apaixonado denominado latino americano e suas origens.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

I - Capoeira Sagrada - Escravidão e Resistência




Analisar os aspectos da Capoeira através do viés esotérico da religiosidade e espiritualidade, no processo de formação da cultura Afro-brasileira, em relação à estruturação das crenças e práticas mágicas milenares do velho continente, sem esquecer a história da cruel escravidão e a resistência do povo negro seria o mesmo que menosprezar as causas que levaram ao enriquecimento dos modos e falas do povo brasileiro e suas manifestações culturais na atualidade, herança tecida a ferro e fogo.

Quando iniciamos esta análise, que deu origem ao ensaio, incentivados na época pelo mestre Batista, um dos principais capitães da Capoeira Angola de Porto Alegre, pesquisamos várias fontes e encontramos na história do Brasil um imenso caudal a ser explorado, tema que normalmente é negligenciado pela visão formal dos academicistas e pelos mestres nas escolas secundárias que impõem uma censura histórica e ideológica sobre a questão. Com esta orientação, e certo de um grande desafio, busquei nas bibliografias dos historiadores e antropólogos no sentido de empreender um tortuoso caminho, com o merecido respeito que o assunto suscita.

Não posso negar ter vislumbrado um universo novo, misterioso e desconhecido da maioria, muitas vezes perturbador por suas origens nos injustos grilhões da escravidão do homem africano, mas imensamente rico em profundidade e evolução que compreende a Capoeira Sagrada e suas muitas manifestações.

Para ampliar a visão do leitor como estudo comparado buscamos traçar uma analogia com as crenças orientais taoistas e budistas, o sufismo árabe e outras formações esotéricas milenares. Diferente do Ocidente onde existe uma clara distinção entre o sagrado e o profano, na Ásia e na África sagrado e profano fazem parte de uma unidade indissolúvel e compreendem o cotidiano das pessoas, suas manifestações culturais, seus cultos e folguedos sem uma fronteira definida.

Dividi este ensaio em duas partes que podem ser lidas de forma independente. Esta primeira trata do regime de escravidão e como o cativo era tratado pelos seus captores e das instituições que deram cobertura e substância jurídica a tal ignominia.  



O cativeiro, a religiosidade e a resistência são os três elementos básicos formadores da personalidade da Capoeira enquanto manifestação única, que possui raízes no continente africano, mas no Brasil adquiriu uma feição própria a partir da condição que o negro encontrou no continente sul americano. Dentro deste padrão particular, desta raiz que foi semeada na sua origem desde que os primeiros negros africanos chegaram no lugar que seria denominado Brasil na condição de escravos cativos. Eles aportaram de uma longa jornada vindos em naves superlotadas, famintos, doentes, vencidos, em absoluta carência psicológica pelo sequestro de seu meio e abandono das suas comunidades de origem. Estes contingentes humanos que tinham sido roubados de tudo puderam estabelecer uma ponte através de rituais velados em seus folguedos e festas conseguiram fortalecer a própria religiosidade em terras estrangeiras, miscigenando sua cultura com a do gentio, e realizando sua resistência, nem sempre pacifica, de luta contra o abjeto sistema de escravidão implantado pelo branco europeu na Colônia.

Darcy Ribeiro em sua obra "O Povo Brasileiro" tenta explicar este processo:

"...por estarem rigidamente prescritos pela estrutura da colônia como sociedade estratificada, a que se incorporava a condição de escravo - sobreviveria principalmente no plano ideológico, porque ele era mais recôndito e próprio. Quer dizer, nas crenças religiosas e nas práticas mágicas, a que o negro se apegava no esforço ingente por consolar-se por seu destino e para controlar as ameaças do mundo azaroso em que submergia. Junto com estes valores espirituais, os negros retêm, no mais recôndito de si, tanto reminiscências rítmicas e musicais, como saberes e gostos culinários." 

Escravidão -  Moinhos de Gastar Gente


O processo escravista moldou toda a nova manifestação cultural de um povo mantido submisso pela força do regime senhorial colonialista vigente. Mais de um século distantes de um regime que perdurou por pelo menos trezentos anos, ainda sentindo suas consequências na estratificação social decorrente deste processo, que ainda ocorrem tanto no Brasil, quanto no continente africano, deste verdadeiro genocídio, tragédia que não encontra paralelo em nenhum outro fato da história humana, podemos através dos historiadores ter uma visão parcial da crueza e selvageria dos tempos da servidão africana.


Explica Darcy Ribeiro:

"Apresado aos quinze anos em sua terra, como se fosse uma caça apanhada numa armadilha, ele era arrastado pelo pombeiro - mercador africano de escravos - para a praia, onde era resgatado em troca de tabaco, aguardente e bugigangas. Dali partia em comboios, pescoço atado a pescoço com outros negros, numa corda puxada até o porto e o tumbeiro. Metido no navio, era deitado no meio de cem outros, para ocupar, por meios e meio, o exíguo espaço do seu tamanho, mal comendo, mal cagando ali mesmo, no meio da fedentina mais hedionda. Escapando vivo a travessia, caía no outro mercado, no lado de cá, onde era examinado como um cavalo magro. Avaliado pelos dentes, pela grossura dos tornozelos e dos punhos, era arrematado. Outro comboio, agora de correntes, o levava terra à dentro, ao senhor das minas ou dos açúcares, para viver o destino que lhe havia prescrito a civilização: trabalhar dezoito horas por dia, todos os dias do ano. No Domingo, podia cultivar uma rocinha, devorar faminto a parca e porca porção de bicho com que restaurava sua capacidade de trabalhar no dia seguinte até a exaustão." 

http://sobradosemocambos.blogspot.com.br/2011/03/motim-bordo-o-trafico-de-escravos.html          

Discorrendo ainda sobre a falta de liberdade, e sobre as dificuldades que o africano encontrava quando cativo em meio aos distantes sertões, numa terra absolutamente desconhecida e agreste, Darcy Ribeiro relata:

"Sem amor de ninguém, sem família, sem sexo que não fosse a masturbação, sem nenhuma identificação com ninguém - seu capataz poderia ser um negro, seus companheiros de infortúnio, inimigos - , maltrapilho e sujo, feio e fedido, perebento e enfermo, sem qualquer gozo ou orgulho do corpo, vivia sua rotina. Esta era sofrer todo o dia o castigo diário das chicotadas soltas, para trabalhar atento e tenso. Semanalmente vinha um castigo preventivo, pedagógico, para não pensar em fuga, e, quando chamava a atenção, recaía sobre ele um castigo exemplar, na forma de mutilação dos dedos, do furo de seios, de queimaduras com tição, de ter todos os dentes quebrados criteriosamente, ou dos açoites do pelourinho, sob trezentas chibatadas de uma vez, para matar, ou cinquenta chicotadas diárias para sobreviver. Se fugia e era apanhado, podia ser marcado a ferro em brasa, tendo um tendão cortado, viver peado com uma bola de ferro, ser queimado vivo, em dias de agonia, na boca da fornalha ou, de uma vez só, jogado nela para arder como um graveto oleoso."  

Em outra obra documental escrita em 1793 de autoria do Doutor Luiz Antonio de Oliveira para a Real Academia de Ciências de Lisboa, preocupado unicamente com o grande desperdício de mão de obra durante o tráfico de escravos no período do auge do processo escravista deixou verdadeiro documento histórico sobre as condições existentes na época relatadas com frieza por testemunha ocular:

" - quando são permutados, sofrem sinal privativo do sertanejo ( o pombeiro que os marcava a ferro pela primeira vez )..., que os levam na escravidão, para serem conhecidos, e achados, no caso de fuga. Ainda de mais lhes acresce, que chegando ao porto maritimo, onde hão-de ser embarcados, aí tornam a ser marcados no peito direito com as armas do rei, e da nação, de quem ficam sendo vassalos, e vão viver sujeitos na escravidão; cujo sinal a fogo lhes é posto com um instrumento de prata no ato de pagar os direitos: a esta marca lhe chamam carimbo" 

"Sofrem de mais outra marca, ou carimbo, que a fogo também lhes manda por o privativo senhor deles, debaixo de cujo nome, e , negociação eles são transportados para o Brasil; a qual lhes é posta, ou no peito esquerdo, ou no braço, para também serem conhecidos em caso de fuga: sem que nestes lances a natureza ceda a atais martírios."







Capturados ao acaso entre centenas de povos e comunidades tribais na África, vindos principalmente, mas não tão só, da costa ocidental do continente, falavam dialetos e linguás diferentes entre sí, o que prejudicava sua identidade e união como etnia homogenia, pelas diferenças culturais e politicas existentes então. Questões particulares, como a religião, servia também de fator de desunião que favorecia os captores que promoviam de forma proposital a divisão das populações de diferentes etnias e impediam assim a formação de núcleos solidários tanto no embarque quanto nas propriedades onde o trabalho escravo era explorado. Só após o transcorrer de algumas gerações a religião e outras manifestações culturais passaram a ser a expressão da consciência negra brasileira.

Como ocorreu com outros imigrantes, vindos a integrar-se na civilização brasileira, os negros, encontrando constituída aquela estruturas luso-tupi tiveram que conviver e aprender a viver, plantando e cozinhando os frutos da terra, chamando as coisas  e os espíritos pelos nomes tupis sincretizados na Língua Geral do Brasil, fumando o tabaco da terra e bebendo o cauim do gentio.

Deste caldeirão de culturas africanas, como dança-luta foi que surgiu a Capoeira, como manifestação cultural nitidamente brasileira, como herança da resistência do oprimido contra o opressor. Esta herança meio cultural, meio racial, associada às crenças indígenas, proveria entretanto à cultura brasileira, em seu plano ideológico, de uma singular fisionomia cultural. Neste esfera, como quer Darcy Ribeiro, é que se destaca, um catolicismo popular muito mais discrepante que qualquer das heresias cristãos tão perseguidas em Portugal.

Luta - A Resistência

"Os escravos metidos nesta tortura, sustentando o horrível combate da vida com a morte, tremendo, e sendo obrigados a miúdo a comparecerem como réus: alguns tomam o fôlego, e morrem; outros passam navalhas às goelas; outros lançam-se aos poços; outros precipitam-se das janelas, das grandes alturas; outros finalmente matam seus senhores." (Memórias a Respeito dos Escravos e Tráfico da Escravatura entre a Costa D'Africa e Brasil - Dr. Luiz Antônio de Oliveira Mendes - 1793)

Uma vez na condição de escravo, só se sai através da morte ou da fuga. Caminho estreito onde muitos negros e índios saíram; pela fuga de uma vida estafante conseguida através do suicídio, que era frequente, ou da fuga pura e simples, na maioria das vezes mortal para o fugitivo. Todo negro alentava no peito uma ilusão de fuga, e sua audácia alimentada pela necessidade de liberdade obrigava o "senhor" a vigiá-lo durante seus sete ou dez anos, expectativa de vida na labuta servil. Seu destino era morrer de estafa, estropiado, que era sua morte natural na época.

A vitima, mesmo sem ter plena consciência das razões do seu ato, subjacente as mesmas encontrava-se a sua condição de cativo como causa indireta de sua ação extrema de tirar a própria vida. Um cativo podia suicidar-se por temer ser vendido, ser separado dos amigos ou ser castigado. Não raro, um cativo matava-se após atentar contra "o senhor" ou algum preposto deste. Escravos suicidavam-se devido a negativa senhorial de alforriá-lo sob pagamento. Em geral, o cativo buscava no suicídio - ainda que inconscientemente - a libertação de uma vida em todos os sentidos ingrata. Com tal ato, o "senhor" perdia o valor representado pelo negro. Mesmo um suicídio fracassado prejudicava o seu "dono". Era baixo o valor de venda de um cativo que atentara contra a sua vida. A eventualidade do suicídio, podia servir como processo em cadeia na população cativa na perspectiva a uma crescente degradação das condições de vida e labuta sem fim. Num ambiente de grande tensão, um suicida podia incentivar com seu exemplo outros cativos igualmente desesperados pela opressão. Crenças e religiosidade também podiam influenciar tais atos, que ocorriam não apenas nos campos ou minas, onde as condições eram ainda piores, mas também nos centros urbanos.

Muitas vezes o suicídio do cativo era anunciado como acidente ou doença, encoberto pelos donos do sistema servil, que não queriam passar por maus amos. Outras vezes o assassinato do cativo era apresentado como suicídio pelo sistema senhorial, eximindo o responsável pelo crime da responsabilidade pelo assassinato cruel. 

O banzo, moléstia psicológica que acometia não só o africano escravizado, mas também o índio cativo era outra fonte comum de morte no cativeiro. O stress pós-traumático natural de uma vida de injurias permanentes, verdadeira doença do espírito, levava o doente ao abandono completo das faculdades em relação ao mundo externo, a recusar alimento até enfraquecer de todo e vir a falecer. As razões desta depressão profunda, conforme relatos da época, estão a saudade dos seus, de sua pátria, o amor perdido de alguém, a ingratidão e aleivosia que outro lhe fizera, a profunda constatação da perda de liberdade, a percepção dos maus tratos continuados. Conforme diagnosticou o Dr. Luiz Antonio de Oliveira Pereira sobre suas Memórias já citada anteriormente: "É uma paixão da alma, a que se entregam, que só é extinta com a morte." 

Os fugitivos do cativeiro, quando alcançavam a liberdade, no meio dos sertões, formavam quilombos, onde tentavam recriar os antigos costumes do continente africano, já integrados ao novo meio ambiente brasileiro. Dos muitos quilombos que existiram alguns foram destruídos pelos capitães do mato que recebiam vultuosas somas pelo apressamento dos homens e mulheres novamente cativos. Muitos eram vendidos no Brasil, outros eram enviados para trabalhar no Caribe para padecer e morrer nas grandes plantações, como aconteceu em Palmares.

Em todo o país, quando ocorreram revoluções, de norte a sul, o africano participou ativamente em busca de sua liberdade demonstrando seu valor em combate. Farrapos, Sabinada, Cabanagem, em todas as revoltas populares o negro atuou sempre na esperança da libertação do cativeiro indigno. Quando os movimentos eram sufocados enquanto os brancos eram degredados ou sofriam penas de restrição de liberdade por tempo determinado, os negros revoltosos eram exterminados em chacinas sangrentas ou mortos pelo açoite.


No sul do Brasil, entre outras regiões, foi grande a atuação dos contingentes de negros. Libertos do cativeiro pela fuga demonstraram real bravura lutando no Uruguai ao lado de Artigas, o herói da independência daquele país. Literalmente lutaram pela própria liberdade, pois em sua maioria tinham fugido da opressão das estâncias e cidades do Brasil meridional atravessando a fronteira para conseguir liberdade em terras castelhanas. Pelo seu grande valor em combate eram consideradas as tropas de elite do libertador. 

Na Guerra dos Farrapos, que durou dez anos, foram os cativos por escolha ou não, incorporados nas tropas, quase sempre como infantaria, pelos caudilhos revoltosos, já que o gaúcho livre só combatia montado, considerando perigoso e inferior combater a pé. Os Lanceiros Negros, que impuseram seu valor na revolta, conseguiram elevar sua condição para cavalarianos na promessa recebida de liberdade ao fim do conflito. Quando caíam prisioneiros, nas mãos dos imperiais, não gozavam dos mesmos direitos dos brancos rendidos. Poderiam sofrer a degola, o supliciamento, a tortura ou retornar à condição de cativo. Com tais crueldades pretendiam desestimular o espírito de luta e evitar que os demais cativos de se sublevarem, o que era comum em muitas localidades.

Ao fim da revolução farroupilha, conforme contam os estudiosos, na última batalha entre imperiais e revoltosos, segundo alguns arranjada, David Canabarro, o general revoltoso, antes manda desmuniciar os soldados negros e assim facilitar sua chacina pelos imperiais. Após este combate foi declarada a trégua, preservando os direitos dos latifundiários escravistas, pois não havia interesse de ambos os lados de libertar negros insurretos treinados nas lides da guerra numa província controlada por escravocratas.

Antes diso, o general Netto, politicamente isolado leva seus soldados negros para o Uruguai onde formaram uma comunidade livre que sobrevive até hoje através de seus descendentes e costumes próprios. 

O cativeiro nunca foi aceito pelo negro no país. Sempre que possível ele tentou a liberdade de todas as formas possíveis através de revoltas e sublevações no interior e nas cidades. Como já foi dito antes com sabedoria: "Não existiram escravos, existiram pessoas que foram tornadas cativas contra a própria vontade."

http://sobradosemocambos.blogspot.com.br/2011/02/as-revoltas-dos-males-na-bahia-do-sec.html

http://sobradosemocambos.blogspot.com.br/2011/03/a-grande-insurreicao-de-1835-bahia.html


A nefasta herança da escravidão ainda se faz sentir em todo o continente americano. O descendente de cativos, ainda hoje, cumpre um papel servil dentro da sociedade capitalista, o novo viés da cultura escravocrata, onde continua a ser tratado como cidadão de condição inferior se não for alguma celebridade do show business ou esportista. Nas comunidades onde habitam suas atividades e tradições são sempre criminalizadas e a opressão é mortal com altos índices de assassinato de negros promovido pelas forças policiais em comparação às demais etnias.